Fórum Sindical realiza seminário que marca o início do curso de formação em saúde do trabalhador(a)

DESTAQUESEMINÁRIOS

Camila Piacesi

O Fórum Sindical em Saúde, Trabalho e Direitos Humanos realizou, nesta terça-feira (13), o seminário de abertura do Curso de Formação-Ação em Vigilância Popular em Saúde do Trabalhador: Construindo multiplicadores de Vigilância em Saúde, Trabalho e Direitos Humanos, no auditório externo da Fundação Oswaldo Cruz. O evento reuniu pesquisadores, estudantes, representantes sindicais, trabalhadores e parlamentares para debater os desafios da saúde do trabalhador no Brasil e fortalecer estratégias de vigilância popular, organização coletiva e defesa dos direitos humanos.

Com duração de seis meses, o curso será realizado na Fiocruz Brasília e busca fortalecer a formação crítica de trabalhadores e trabalhadoras por meio de metodologias participativas, que abordam temas como saúde mental, desigualdades no trabalho, vigilância em saúde e organização coletiva. A iniciativa também prevê a criação de um observatório em saúde, trabalho e direitos humanos para fortalecer a incidência em políticas públicas.

A mesa de abertura foi coordenada pelo professor e pesquisador Jorge Machado, coordenador do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (PSAT) e membro da executiva do Fórum Sindical. Jorge ressaltou o significado político e histórico da construção do curso.

“Ficamos três anos construindo esse momento. Chegamos aqui com a discussão da saúde do trabalhador articulada à reforma sanitária e ao SUS, para construir a possibilidade de discutir saúde do trabalho dentro do SUS”, declarou. Para ele, essa construção representa uma inovação e uma possibilidade singular para fortalecer a saúde do trabalhador dentro das políticas públicas.

Ao final da abertura, foi exibido um vídeo de boas-vindas do professor Luiz Carlos Fadel de Vasconcellos, que é um dos inspiradores da construção do Fórum Sindical e referência nacional na defesa da saúde do trabalhador.

A diretora da Fiocruz Brasília, Maria Fabiana Damásio, também participou da mesa e ressaltou a importância da permanência da pauta da saúde do trabalhador dentro da instituição. “Não é à toa que o curso se chama formação-ação. A proposta é que essas discussões se revertam em mudanças concretas nos territórios”, pontuou.

Já a segunda mesa debateu a relação entre ação sindical, saúde e direitos dos trabalhadores, com coordenação do presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal, Jorge Henrique de Sousa. O dirigente observou que o trabalho, ao mesmo tempo em que organiza a vida material, também tem sido responsável pelo adoecimento físico e mental dos trabalhadores, especialmente diante da precarização, terceirizações, sobrecarga e perda de direitos. E chamou atenção para o impacto do baixo investimento público na saúde e educação, além do aumento dos acidentes de trabalho e do sofrimento mental entre profissionais da saúde, especialmente na enfermagem.

A deputada federal Érika Kokay avaliou que a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática passa pelo rompimento das diversas formas de desumanização impostas aos trabalhadores. No modelo atual, trabalhadores e trabalhadoras são frequentemente tratados apenas como números, metas ou instrumentos de lucro, tendo suas identidades, sentimentos e subjetividades invisibilizados dentro dos ambientes laborais. A parlamentar também criticou a lógica meritocrática e o medo constante imposto pela precarização, além de destacar que o individualismo enfraquece os laços coletivos e dificulta a transformação social.

A coordenadora do MotoBrabas e motogirl, Carolina Souza, aproveitou o espaço para relatar a realidade enfrentada pelas mulheres entregadoras no Distrito Federal. A maioria das motogirls, explicou Carolina, é chefe de família e enfrenta jornadas exaustivas para conseguir garantir renda, alimentação e moradia. “Não bater a meta em um dia pode significar não pagar o aluguel ou colocar comida dentro de casa”, comentou.

Ela também explicou sobre a precarização do trabalho por aplicativos, os riscos constantes de acidentes e o assédio sofrido pelas mulheres entregadoras e contou que sofreu um grave acidente de moto há dois anos. “Muitas trabalhadoras vivem diariamente com medo e insegurança. A gente sai de casa sem saber se volta”, disse.

Já Maria Francinalva Braga, trabalhadora do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), descreveu as dificuldades enfrentadas diariamente na rotina de trabalho. Ela contou que sai de casa às 4 horas da manhã e reclamou que, muitas vezes, as trabalhadoras não encontram sequer locais adequados para usar o banheiro durante a jornada. Segundo ela, nas ruas, muitas pessoas ainda inventam desculpas para impedir o acesso dessas profissionais aos banheiros.

Um tema de suma importância que está em debate no Congresso Nacional, foi lembrado pelo diretor do Sindicato dos Bancários de Brasília, Rafael Guimarães, a redução da jornada de trabalho. Rafael destacou a mobilização nacional pelo fim da escala 6x1 e reforçou que a luta pela diminuição da jornada é histórica dentro do movimento sindical. O sindicalista também alertou para a realidade ainda mais precarizada dos trabalhadores submetidos ao chamado “7x0”, sem direito a descanso semanal. “A gente precisa olhar para quem ainda vive uma forma moderna de escravidão, trabalhando todos os dias da semana sem parar”, assegurou.

A terceira mesa aprofundou o debate sobre formação sindical, saúde mental, racismo estrutural e os impactos históricos da precarização sobre a classe trabalhadora. O professor Thiago Sebastiano de Melo advertiu que o Fórum Sindical vem se consolidando como um espaço de articulação da classe trabalhadora organizada e dos segmentos mais precarizados do mundo do trabalho. “O curso tem o desafio de formar multiplicadores em vigilância popular para atuar nos territórios e transformar o trabalho em um espaço de promoção da saúde e da dignidade humana”, alertou.

A questão do sofrimento psíquico estar diretamente ligado às desigualdades sociais, às violências e à precarização das condições de vida e trabalho foi explicado pela professora e pesquisadora Graziela Barbosa Barreiros. Para ela, saúde mental não pode ser reduzida apenas a diagnósticos, medicações ou alterações biológicas, mas precisa ser compreendida a partir das condições concretas de existência da população.

“Quando a gente vai trabalhar e não sabe se volta, não tem lugar para comer ou fazer xixi, isso é sofrimento mental. O que causa doença mental é falta de paz, de segurança e de dignidade”, elucidou.

Graziela acrescentou que racismo, machismo, pobreza, violência, fome, abandono e falta de direitos estão diretamente relacionados ao adoecimento mental da população. Na avaliação da pesquisadora, o sofrimento psíquico muitas vezes é tratado de forma individualizada, sem considerar as estruturas sociais que produzem desigualdade e exclusão.

A professora também defendeu uma saúde mental baseada no cuidado comunitário, na garantia de direitos e no fortalecimento do SUS. Os espaços coletivos, cultura, pertencimento, território, religiosidade, convivência comunitária e organização popular também são formas de produção de saúde mental. “A gente precisa construir uma saúde mental baseada na liberdade, na justiça social e na possibilidade das pessoas viverem com dignidade”, concluiu.

Já o pesquisador Matheus Brito ponderou que o combate ao racismo precisa estar no centro das discussões sobre saúde do trabalhador. Segundo ele, a população negra e indígena ainda sofre os impactos históricos da escravidão, da exclusão social e da violência estrutural. “O racismo mata, enlouquece e produz desigualdades profundas nas condições de vida, trabalho e acesso à cidadania”, declarou. Ele ainda reforçou a importância da organização coletiva e da luta por políticas de reparação histórica, dignidade e justiça social.

Encerrando a terceira mesa do seminário, a militante do MST Lura Machado Costa aprofundou o debate em relação entre racismo estrutural, colonialismo e saúde mental. Segundo ela, o sofrimento psíquico das populações racializadas não pode ser compreendido fora da história da escravidão, da exclusão social e das desigualdades produzidas pelo capitalismo e pelo racismo.

“O racismo não é apenas uma ideologia, ele estrutura materialmente a produção da subjetividade e define quem sofre, quem é cuidado e quais vidas são consideradas dignas”, completou.

Lura também criticou a medicalização do sofrimento causado pela violência social e racial, enfatizando que muitas vezes o sofrimento coletivo é tratado apenas como problema individual. Para ela, o cuidado em saúde mental precisa estar conectado à transformação social, à garantia de direitos, ao território, à renda, à dignidade e ao fortalecimento das coletividades. A pesquisadora ainda lembrou que o racismo produz exclusão, sofrimento e alienação, afetando diretamente as condições de vida, trabalho e saúde da população negra e periférica.